ARACY ARNAUD SAMPAIO
Quando os Sampaio, de origem cearense, radicaram-se em Barreiras no ano de 1887, sob a liderança do patriarca Joaquim Raulino Sampaio, não imaginavam que 30 anos depois nasceria uma mulher para honrar as tradições militares da família. Aracy Arnaud Sampaio nasceu em 19 de outubro de 1917, numa Barreiras que ainda despontava. A moça é sobrinha-bisneta do Brigadeiro Sampaio, renomado herói da Guerra do Paraguai, e patrono da Infantaria Brasileira.
Quando jovem, ingressou na faculdade de Ciências Econômicas, mas desistiu em 1942 após o afundamento dos navios mercantes brasileiros pelos submarinos nazifascistas. Matriculou-se então no curso de Enfermagem Voluntária Socorrista, e trabalhou no Hospital Santa Izabel e na Cruz Vermelha, para tratar dos que sobreviveram aos atentados.
Em 31 de agosto daquele ano, em resposta a ofensa alemã, o Presidente Getúlio Vargas declarou guerra as potências do Eixo Berlim-Roma-Tóquio. A sociedade machista da época não estava preparada para receber mulheres nas Forças Armadas. Mesmo assim, abriram o voluntariado para aquelas que desejassem servir como enfermeiras. Aracy foi uma das setenta e três mulheres que responderam ao chamado da nação, demonstrando qualidades como abnegação, humildade e companheirismo.
A jovem realizou o Curso de Adaptação ao Exército na 6ª. Região Militar, granjeando a 1ª. colocação, e sendo notíciada em jornais que enfatizaram o fato dela descender de Sampaio. Sua convocação oficial para a FEB (Força Expedicionária Brasileira) daria-se pela Portaria 7.018, no dia 9 de agosto de 1944.
Nas vésperas de partir para a guerra, nossa febiana embarcou em um navio para o Rio de Janeiro. Na Cidade Maravilhosa, participou do desfile expedicionário com as outras setenta e duas mulheres, na Avenida Rio Branco, sob os olhares atentos e preocupados de milhares de brasileiros. Em 19 de outubro daquele ano, data em que completava 27 anos de idade, partiu com dezoito colegas em um avião da Força Aérea Brasileira, em direção ao Teatro de Operações da Itália.
As nossas heroínas embarcaram para a Europa como civis, mas pelo fato das enfermeiras norte-americanas serem oficiais, tal situação foi equiparada às brasileiras. Tornou-se então, a 2º Tenente Aracy Sampaio.
No conflito, a sertaneja foi classificada na Enfermaria de Cirurgia e Clínica Médica E-22, do 7º Hospital, em Livorno, tratando dos 60 oficiais feridos e mutilados das Nações Aliadas que sempre ocupavam aquela seção. Além de enfermeira, Aracy não media esforços para ser amiga e serviçal daqueles companheiros de infortúnio, escrevendo para as suas famílias, lendo histórias, e cantando para amenizar o sofrimento vivenciado no front. Sua virtuosa atuação fez o major sub chefe da seção apontá-la ao Marechal João Baptista Mascarenhas de Moraes, Comandante da FEB, como elemento de destaque e exemplo perfeito de enfermeira de guerra.
Mesmo prestando apoio no hospital, Aracy Sampaio não estava isenta de perigo. O local era constantemente alvo da artilharia inimiga. Em uma das explosões, estilhaços das janelas caíram em cima dos feridos. Mesmo trêmula e assustada, a expedicionária não hesitou em limpar seus pacientes, com desmedido esforço para transmitir a tranquilidade que tanto lhe faltava. Em outro episódio sangrento, uma mina deixada pelos alemães explodiu no hospital, deixando-a irremediavelmente surda do ouvido esquerdo.
No dia 21 de fevereiro de 1945, a FEB realizou a lendária Tomada de Monte Castelo. Esta conquista histórica, escrita à sangue dos nossos pracinhas, lotou o hospital de heróis brasileiros, trazendo os mais conturbados dias para a barreirense.
No dia 08 de maio de 1945, nossa febiana seria surpreendida com apitos, buzinas, músicas e gritos, que averbados em várias línguas anunciavam alegremente o fim do maior conflito da humanidade. Repleta de alegria pela vitória, orgulho pela contribuição brasileira, e tristeza por ter que separar-se dos seus amigos de farda, embarcaria em outro avião de volta para o amado Brasil, em junho de 1945.
Em decorrência da perda da audição, Aracy Sampaio foi impedida de continuar no serviço regular do Exército, sendo licenciada na Portaria 8.411, que também condecorou-a pelos seus relevantes serviços com a Medalha de Campanha e a Medalha de Guerra, pelo Exército Brasileiro, e com o distintivo ‘’USA Meritorium Service’’, pelo Exército Estadunidense. Anos depois, ainda seria agraciada com a Medalha Cinquentenário do Término da Segunda Guerra Mundial, e a Medalha Marechal Mascarenhas de Moraes.
Mesmo na reserva remunerada, Aracy foi promovida ao posto de capitão a contar de 18 de novembro de 1954. A barreirense dedicou o resto da vida a cuidar da família, e dos pracinhas que mais pesadamente carrregavam os traumas do conflito. Além de ter participado da diretoria da Associação Nacional de Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (ANVFEB) em Belém-PA e Brasília-DF, foi a única mulher do mundo a presidir um conselho nacional de veteranos de guerra: a Associação dos Ex-Combatentes do Brasil. Dotada de excelentes argumentos, assim como do dom de apaziguar, a barreirense concorreu para atenuar as tensões existentes entre as duas associações.
Em 08 de setembro de 2008, Aracy Arnaud Sampaio faleceu durante uma Convenção de Veteranos da FEB, que se realizava na capital federal. Jamais esquecida pelo 4º Batalhão de Engenharia de Construção, único quartel da sua terra natal, teve o seu nome registrado no livro alusivo aos 40 anos do 4º BEC na Cidade de Barreiras. Além disso, ela torna-se nesta presente data, a primeira mulher e o terceiro militar a receber do batalhão o Diploma da Ordem do Rio Grande no Grau Patrono, o mais elevado desta comenda honorífica.
Mesmo tendo vivenciado experiência terríveis em meio a um local de desgraça, sofrimento, dor e morte, a heroína deixou um legado de patriotismo, sacrifício, coragem e determinação, honrando as tradições cívicas da Família Sampaio, e as tradições femininas da sertaneja baiana Maria Quitéria. Sua trajetória exemplar inspira as mulheres da Família General Argolo, imortalizando o seu glorioso nome nas páginas da história de Barreiras, do Brasil e do mundo.
Redação e pesquisa: 1º Tenente João Paulo PINHEIRO Lima


